
A Inteligência Artificial pode transformar processos e ampliar a automação, mas não elimina a necessidade da contabilidade. Essa foi uma das principais mensagens de Eliseu Martins, professor emérito das Faculdades de Economia, Administração e Contabilidade da USP em São Paulo e da USP em Ribeirão Preto, e ex-diretor do Banco Central e ex-diretor da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), durante a palestra magna do 3º Encontro Nacional dos Contadores do Setor de Saneamento Básico (ENCONSAB), realizada no painel “O futuro da contabilidade: regulação, transparência e sustentabilidade”.
Ao discutir os impactos da inteligência artificial sobre a profissão, o professor destacou que a tecnologia não é recente e já vem sendo aplicada há décadas em diferentes áreas, como saúde, marketing e finanças. Para ele, o grande salto proporcionado pelo ChatGPT foi a democratização do acesso a tecnologias que antes eram desenvolvidas para aplicações e setores específicos.
A partir desse cenário, o professor propôs uma reflexão sobre o futuro da profissão. “A pergunta não é ‘vai acabar o contador?’. A pergunta é: ‘vai acabar o usuário?’”, provocou. Segundo o professor Eliseu Martins, a contabilidade surgiu da necessidade de produzir informações para quem precisa controlar, avaliar desempenho e tomar decisões. Ao longo do tempo, esse grupo de usuários se ampliou e passou a incluir gestores, credores, investidores, governo, órgãos reguladores e, mais recentemente, a sociedade, diante da crescente demanda por informações relacionadas à sustentabilidade.
“Enquanto existir usuário, vai existir a contabilidade”, afirmou.
Para o professor, o avanço tecnológico reforça a necessidade de o contador compreender não apenas os procedimentos contábeis, mas também as demandas de quem utiliza as informações. “Nós temos que conhecer o que fazem os nossos usuários, para que eles precisam das informações e daí verificar quais são as que nós podemos gerar, produzir e dar a eles”, destacou.
O professor também defendeu que, diante das normas contábeis, em vez de apenas saber como aplicar determinada regra, o profissional deve compreender sua finalidade, seus fundamentos e sua utilidade para cada usuário.
“A contabilidade só existe por conta de usuário. Pequeno problema: não é um usuário, são muitos”, resumiu.
Essa diversidade, segundo ele, faz com que uma mesma empresa possa precisar de diferentes informações e estruturas contábeis para atender gestores, investidores, credores, órgãos reguladores e autoridades tributárias. Nesse contexto, o contador assume um papel cada vez mais estratégico na produção, interpretação e comunicação dessas informações.
A transformação do perfil profissional também exige uma formação mais ampla. Eliseu Martins destacou a importância de conhecimentos que ultrapassem a contabilidade.
A inteligência emocional foi outro ponto de destaque da palestra. Para o professor, a capacidade técnica continua sendo fundamental, mas não é suficiente para o profissional que pretende avançar na carreira. A habilidade de comunicar e traduzir informações também determina o quanto o conhecimento produzido será efetivamente aproveitado.
“Que que adianta você produzir um ótimo relatório se você não tem paciência, não sabe escrever, não sabe se comunicar, não sabe falar, não sabe explicar, não sabe entender? Aquela informação só tem um caminho: o lixo”, afirmou.
Segundo o professor, a inteligência emocional ganha ainda mais importância à medida que o profissional assume posições de maior responsabilidade. “Tem que ter o suporte técnico, ele é necessário, mas não é suficiente”, reforçou.
Ao encerrar, Eliseu Martins reforçou que a inteligência artificial deve ser encarada como parte de uma transformação da profissão, e não como uma ameaça à sua existência. O desafio, segundo ele, está em preparar o contador para atuar de forma mais crítica e estratégica, compreendendo diferentes usuários e utilizando a tecnologia para ampliar a qualidade e a utilidade das informações contábeis.


